Três compositores, três estilos diferentes.

O concerto abre com obra do italiano Wolf-Ferrari, que é conhecido por suas óperas cômicas, tal qual a que será apresentada, Abertura Il segreto di Susanna. O compositor brasileiro Germano Fonseca, que vive em Campinas, dá continuidade com a obra Intermitências - Variações Concertantes para Vibrafone e Orquestra, que tem aqui sua estréia mundial. Como encerramento, será executada a Sinfonia n° 3, op. 56, em lá menor (Escocesa) de Felix Mendelssohn, ao qual comemoramos 200 anos de nascimento.

Os compositores

ERMANNO WOLF-FERRARI (Veneza, 1876-1948)

Abertura da ópera Il segreto di Susanna

Wolf-Ferrari era filho de mãe italiana e o pai, alemão, era pintor e esta atividade foi o primeiro interesse de Ermanno, que estudou pintura em Veneza e em Munique. Foi nesta última que se interessou pela música e entrou para o conservatório, onde aprendeu contraponto e composição. A partir de então passou a se dedicar integralmente à música, tornando-se bastante conhecido por suas óperas cômicas, como é caso de Il segreto di Susanna (O segredo de Suzana).

Esta ópera, cujo libreto original em italiano foi escrito por Enrico Golisciani, tem apenas um ato. Estreou no Hoftheater de Munique em dezembro de 1909 com o libreto traduzido para o alemão.

O enredo é bastante singelo e conta a história do ciumento Conde Gil, que acredita ter visto sua esposa, Susanna, caminhando sozinha pela rua.

Fica aliviado ao encontrar a esposa em seu quarto, mas um fato chama a sua atenção: sentiu cheiro de tabaco. Pois se nem ele nem a esposa eram fumantes, quem teria fumado naquele ambiente? Um amante!

Gil percebe que o cheiro vem das roupas de Susanna e esta, acossada pelo marido, confirma ter um segredo, que jamais revelaria. Gil sai de casa à procura do fumante suspeito e Susanna, bastante nervosa, acende um cigarro... Gil, com o pretexto de pegar um guarda-chuva retorna para casa e, ao sentir novamente o cheiro de cigarro, retoma a busca pelo “outro”.

Ao final, Susanna é pega com um cigarro aceso nas mãos e seu segredo é revelado. A ópera termina com juras de amor eterno, entre baforadas de um cigarro fumado por ambos.

Wolf-Ferrari começou sua carreira como compositor transformando as farsas venezianas do século XVIII escritas por Carlo Goldoni em óperas cômicas. O resultado são obras melódicas e hilariantes que se tornaram sucesso internacional, sendo que Ferrari era um dos compositores mais executados até o início da I Guerra Mundial. Após uma pausa durante a guerra, o compositor retomou sua carreira, agora com uma veia mais melancólica, suas óperas tornaram-se mais escuras e complexas no aspecto emocional, como a ópera Sky de 1927. Em 1939 tornou-se professor de composição no Mozarteum de Salzburgo.

GERMANO FONSECA (Abaetetuba, PA, 1954)

Intermitências - Variações Concertantes para Vibrafone e Orquestra

Após estudos em Belém, Fonseca transferiu-se para Campinas em 1981 para cursar  Composição na UNICAMP. Ali estudou com professores como Almeida Prado, Damiano Cozzella, Raul do Valle, Maria Lúcia Paschoal e José Eduardo Gramani, Gualberto Estades Basavilbaso (viola) e Henrique Gregori (regência). Em 1987 passa a integrar o naipe de violas da OSMC.

Dentre suas principais composições orquestrais, destacam-se: Experimento, já executada pela Sinfônica de Campinas em 1997, Flashes Brasilianos, Catrâmbias e Nuances, aindainéditas. No âmbito da música de câmera escreveu diversas peças como Três Movimentos para Oboé e Piano, Ingrid para oboé solo, Recitativo para trompete, Azulunar, para flauta solo, Poemática para grupo de percussão, Divagações Notívagas, violino e piano, entre outras.

 Na área de música popular, atuou como arranjador e orquestrador em vários shows com a Orquestra de Americana e Orquestra Filarmônica de Rio Claro junto a artistas como: Chico Cesar,Toquinho, Toninho Horta, Moraes Moreira, Fátima Guedes, João Bosco , Paulinho Nogueira e outros.

Participou de gravações com a Camerata Barroca de Campinas, do CD Paulicéia com o trompetista Paulo Ronqui e recentemente teve sua peça Metamorproseando gravada pelo grupo Trombonaria.

Concebida em 2006 e revisada em 2008, Intermitências foi dedicada a Fernando Hashimoto, que incentivou o compositor a escrever um concerto para percussão e orquestra, surgindo assim a idéia e a inspiração destas variações para vibrafone e orquestra.

Segundo Fonseca, “a obra foi desenvolvida tendo como modelo uma série dodecafônica com seu retrógado e respectivas inversões. Diante deste material, foram construídos vários blocos harmônicos, motivos e melodias que surgem da combinação de fragmentos da série, que interagem intermitentemente durante o limiar da peça em contraponto, nuances rítmicas e polirritmicas, contrastando com o solo em diversas seções, as chamadas variações, e que levam sempre a um caráter brasileiro, observado nos vários segmentos da obra, que, apesar de ser escrita usando uma série como base, não segue rigidamente os preceitos da música dodecafônica, pois, os temas surgem e são tratados livremente nos demais blocos da obra, dentro de uma concepção tonal ampla”.

FELIX MENDELSSOHN (Hamburgo, 1809-Viena, 1847)

Sinfonia n° 3, op. 56, em lá menor (Escocesa)

Mendelssohn era neto de Moses Mendelssohn, conhecido como “Platão da Alemanha” após a publicação de “Phaedon” ou “A imortalidade da alma”. O pai de Felix, Abraham, casou-se em 1804 com Lea Salomon, herdeira de rica família judaica. Associado ao irmão fundou em Berlim a casa bancária J. & A. Mendelssohn, que sobreviveu até 1938, quando foi fechada pelos nazistas. Batizou seus quatro filhos na igreja luterana e acrescentou Bartholdy ao sobrenome da família, pois já era grande o sentimento antijudeu na Alemanha.

Felix realizou diversas viagens de estudo pela Europa até estabelecer-se em Dusseldorf como Supervisor das Atividades Musicais em 1833. Três anos depois se tornou regente da Orquestra Gewandhaus de Leipzig, onde criou o famoso Conservatório de Música em 1843.

A Sinfonia Escocesa, embora seja conhecida como a terceira, foi na verdade a última das treze que compôs. Isso porque era comum no século XIX numerar as obras pela data da publicação, não da composição. A idéia da composição desta obra surgiu em 1829, quando Mendelssohn visitou a Escócia e ficou encantado com o que viu, em especial o Castelo de Holyrood, onde viveu Mary Stuart.

Ainda impressionado escreveu à família: “Tudo aqui parece tão duro e robusto, envolto em neblina ou fumaça ou névoa... Muitos montanheses entram vestidos a caráter na igreja, vitoriosamente conduzindo suas amadas em roupas de domingo e lançando magníficos e importantes olhares sobre o mundo (...). Ao entardecer fomos ao palácio onde Mary Stuart viveu e amou... A capela fechada está agora sem teto, grama e hera cresceram ali e isso destroçou o altar onde Mary foi coroada rainha da Escócia. Eu acredito que encontrei hoje nesta velha capela o começo da minha Sinfonia Escocesa”.

Os quatro movimentos da sinfonia trazem referências àquele país: o primeiro retrata o ambiente misterioso do velho castelo, paredes cobertas de musgo, escadas estreitas, aposentos sombrios e a capela sem telhado; o segundo tem uma alegria idílica emoldurada pelo ritmo escocês conhecido como Scottish snap (estalo escocês); o terceiro é um Adágio altamente romântico, um devaneio sobre a antiga grandeza do país, em contraste com um quarto movimento vigoroso e heróico, Allegro Guerriero, conforme indicado no manuscrito, eco das grandes batalhas ali travadas; um breve Allegro Maestoso assai, colorido pela melodia nacional, conclui a obra.

Um convite da Rainha Vitória para visitar o Reino Unido apressou a conclusão da obra, que estreou naquele país em 1842, ficando conhecida por algum tempo como Sinfonia Vitória, por ter sido dedicada à soberana.

Lenita W. M. Nogueira

 

Karl Martin faz seu primeiro concerto na Temporada 2009.

Regente Convidado Principal

Solista Fernando Hashimoto

Ligia Amadio – Regente Titular